Afinal, o que é a igreja? (parte 2)

imagem de Flávio Cardoso
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Em nossa última reflexão, começamos a tentar resgatar a verdadeira identidade bíblica da Igreja de Jesus Cristo. Trabalhamos a ideia de que, ao pensarmos em igreja, o que deve vir à nossa mente não é uma instituição, mas um grupo de pessoas. Se seu nome está no rol de membros de uma instituição, mas você não está plenamente integrado a um grupo de cristãos, ministrando e sendo ministrado, não se engane: você não é parte da Igreja de Jesus Cristo. Por outro lado, se você está plenamente integrado ao Corpo de Cristo, desempenhando suas funções como membro desse Corpo, não há nenhuma dúvida de que você faz parte da Igreja, mesmo que não tenha "carteirinha de membro" de uma instituição.

Não estou, de forma alguma, querendo destruir as instituições às quais temos chamado de "igrejas". Isso seria o mesmo que atirar no meu próprio pé. Afinal, sou pastor de uma delas. Não vejo qualquer problema em existirem as igrejas Nova Vida, Batista, Presbiteriana etc. O problema acontece quando os membros dessas instituições confundem as coisas e começam a pensar que basta participar dessas instituições que automaticamente estarão na Igreja de Jesus Cristo. Por outro lado, se os discípulos tiverem plena consciência de que ELES é que SÃO A IGREJA, então não há nenhum problema em continuarem associados a instituições.

Talvez vocês pensem que essa diferença não seja assim tão importante. Nesta reflexão, e possivelmente na próxima, eu pretendo mostrar-lhes o contrário. Creio que boa parte da crise vivenciada na igreja evangélica brasileira atual se deve à falta de discernimento sobre essa questão.

Apenas para facilitar nossa exposição, vamos chamar de "crentes de carteirinha" àquelas pessoas que não compreendem com clareza a visão bíblica de Igreja. Já aos que entendem o que significa "ser Igreja", chamaremos de "discípulos de Cristo".

Falta de compromisso

Os crentes de carteirinha não se sentem responsáveis pelo sucesso ou pelo fracasso da igreja. Quando a igreja vai bem, eles ficam felizes em participar dela. Elogiam o pastor e a liderança, e contam a todos como a sua igreja é boa. Por outro lado, quando os problemas surgem, eles logo crucificam o pastor e a liderança. Adoram fazer diagnósticos dos problemas e propor soluções: "essa igreja tem que ter mais oração"; "o pastor é muito devagar"; "a liderança é uma panelinha"; "tá faltando ensino bíblico" etc.

Crentes de carteirinha gostam muito de dar ideias. Mas não conte com eles para mover uma palha. Acham que falta oração, mas são incapazes de criar e manter um grupo de oração na igreja. Criticam o pastor sempre que podem, mas não gastam nem um minuto por dia orando por ele. Às vezes, eles até tentam começar a fazer algo, mas suas iniciativas são como "fogo de palha": logo esmorecem. Ao final, acabam se transferindo para outras instituições, nas quais "congregam" felizes da vida, até que a "lua-de-mel" acaba e a onda de críticas se repete.

Para os crentes de carteirinha, o problema é da igreja, e não deles; afinal, na sua mente confusa prevalece a ideia errada de que a igreja é uma coisa, e eles são outra.

Você já viu um homem cego andando com o auxílio de uma bengala? Ele só consegue isso porque seu tato e sua audição são muito mais desenvolvidos do que os de uma pessoa normal. Já que os olhos não funcionam, as mãos precisam se desdobrar para desviar dos obstáculos. Também os ouvidos são muito aguçados, para identificar sons que possam representar problemas. O que aconteceria se a mão e o ouvido, em vez de se desdobrarem, começassem a criticar os olhos porque não funcionam direito? E se começassem a dar sugestões aos olhos? Será que isso seria de algum proveito para o corpo de cego? Pois bem, é exatamente essa bizarrice que fazem os crentes de carteirinha.

Quando os verdadeiros discípulos de Cristo percebem que algum membro do Corpo não está funcionando bem, eles se desdobram para compensar a deficiência. Talvez eles até assumam temporariamente certas funções para as quais não foram designados. E, claro, fazem de tudo para ajudar a curar aquele membro que está com problemas, pois o Corpo de Cristo só funciona direito quando "todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função" (Efésios 4:16).

Falta de responsabilidade

Como já falei, o crente de carteirinha sempre culpa outros pelos problemas da igreja: o pastor ou a liderança. Mas, o que a Bíblia tem a nos dizer sobre isso? Em algumas cartas do apóstolo Paulo, nós o vemos repreendendo duramente algumas igrejas, tais como a de Corinto e a da Galácia. Em Corinto, havia pecados horríveis e bastante confusão no uso dos dons espirituais. Na Galácia, erros doutrinários preocupantes. Mas, nessas repreensões, ouve alguma menção aos pastores? NÃO! O apóstolo jamais culpou os pastores pelos problemas das igrejas. Por que será?

Por uma razão muito simples. A responsabilidade pelo cuidado dos cristãos não é dos pastores, mas dos próprios cristãos. Todos os membros do Corpo de Cristo são responsáveis pelos demais membros. É isso que a Bíblia nos ensina. E não estou falando de algum versículo escondido num cantinho do Novo Testamento. Veja:

  • Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente, como também estais fazendo. (1 Ts 5:11)
  • sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. (Ef 5:21)
  • Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. (Rm 12:10)
  • Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente, (1 Pe 1:22)
  • Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. (Jo 13:35)
  • com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, (Ef 4:2)
  • Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; (Cl 3:13 )
  • Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. (Tg 5:16)
  • Consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (Hb 10:24)
  • Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou. (Ef 4:32)
  • E certo estou, meus irmãos, sim, eu mesmo, a vosso respeito, de que estais possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros. (Rm 15:14)
  • Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. (Gl 6:2)
  • pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. (Hb 3:13)
  • Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. (Jo 13:14)
  • Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. (Gl 5:13)
  • Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. (I Pe 4:10)
  • Sendo hospitaleiros uns para com os outros, sem murmurações, (I Pe 4:9)
  • Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça. (1 Pe 5:5)
  • Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. (Cl 3:16)
  • Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus.  (Rm 15:7)
  • Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz. (Hb 13:16)

Então, os discípulos de Cristo não jogam sobre os pastores, ou sobre a liderança, a responsabilidade pelos problemas com a igreja. Ao contrário: eles chamam essa responsabilidade para si. Os problemas da igreja são  problemas de todos; não apenas do pastor. De acordo com a Bíblia o pastoreio é, sobretudo, mútuo.

Aos crentes de carteirinha, pergunto: seu pastor não ora o suficiente por você? Então "orai uns pelos outros". Seu pastor não te ensina? "Instruí-vos uns aos outros". Seu pastor não carrega as suas cargas? "Levai as cargas uns dos outros". E assim por diante...

Para reflexão em grupo

  1. Depois de ter lido esta lição, como você avalia sua condição de cristão? Você tem se portado mais como crente de carteirinha, ou como discípulo de Cristo?
  2. Considerando a extensa lista de mandamentos recíprocos apresentados nesta lição, quais você considera que têm sido negligenciados em seu Grupo de Vida?
  3. Depois de perceber que a responsabilidade pelo cuidado dos cristãos é dos próprios cristãos, talvez você fique se perguntando: "então, qual é a responsabilidade dos pastores?" Taí uma ótima pergunta! SUGESTÃO: o GV poderia passar a próxima semana pesquisando sobre isso nas Escrituras Sagradas.

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